Em 2010 e já em 2011, a recuperação africana foi sobretudo impulsionada pelo volume das exportações e pelos preços das mercadorias. Em 2010, as exportações reais cresceram 3,1%, após um declínio de 2,5% em 2009. As exportações devem continuar a ser um importante motor de crescimento, mas a procura interna também está a crescer em muitos países. Alguns países ricos em recursos, como o Botsuana, a Argélia, o Chade, o Gabão e a Nigéria, usam os rendimentos adicionais do Estado provenientes dos recursos naturais para financiar os gastos governamentais de investimento em infraestruturas e no consumo público.

Por vezes os países utilizam igualmente estes recursos adicionais para apoiar os agregados familiares, aumentando assim a procura interna. Nalguns casos, como nos Camarões, no Quénia, na África do Sul, no Senegal e na Tanzânia, a procura interna deverá sustentar, em grande medida, o crescimento. Porém, a alta dos preços dos alimentos e do petróleo está a restringir, em muitos países, o consumo privado real.

Por outro lado, prevê-se que as remessas para África não cresçam em 2011, devido aos recentes acontecimentos políticos na Líbia e na Costa do Marfim, que estão a afectar seriamente as remessas para os países vizinhos2 (ver Figura 1.5).

 

 

Figura 1.5: Remessas dos emigrantes para África

Do lado da oferta, a expansão económica africana é impulsionada por alguns sectores, cuja influência varia em função das diferentes características dos países. Em países ricos em recursos, o sector da exploração mineral voltou a ser o principal motor do crescimento, e, nalguns países, novos campos petrolíferos estão a começar a produzir. Em países que usam os ganhos adicionais das exportações para o investimento em infraestruturas, também o sector da construção está em rápido crescimento.

Em muitos países africanos, o sector agrícola domina a actividade económica. Este sector representa 40% ou mais do PIB no Burundi, na República Centro Africana, na República do Congo, na Etiópia, na Guiné-Bissau, no Níger, na Libéria, na Serra Leoa e no Togo, e entre 20 a 40% no Benim, no Burkina-Faso, nos Camarões, no Chade, na Costa do Marfim, na Guiné Conacri, no Gana, no Quénia, em Madagáscar, no Malawi, em Moçambique, na Nigéria, na Tanzânia, no Sudão, no Uganda e na Zâmbia. Na maior parte do continente, o sector agrícola teve um desempenho relativamente bom em 2010, fruto de condições climatéricas favoráveis – o que também ajudou a mitigar os efeitos negativos dos preços dos alimentos mais elevados, em termos globais.

Mas, em muitos países, como na Tunísia, a produção agrícola foi afectada, devido à seca, e no Benim e no Uganda, devido a cheias. Partindo do pressuposto de condições climatéricas normais, espera-se que a produção agrícola africana aumente mais e que contribua para o crescimento do PIB. A agricultura, no entanto, continua a estar fortemente dependente da imprevisibilidade climatérica.

Também o sector dos serviços dá um importante contributo ao crescimento africano. Em muitos países, como a África do Sul (devido ao Campeonato do Mundo de Futebol), o Botsuana, as Maurícias, Marrocos, as Seychelles, a Tanzânia, o Egipto e a Tunísia, o turismo ganhou um novo impulso em 2010. No Egipto e na Tunísia, no entanto, o turismo deverá diminuir em 2011, perante os recentes acontecimentos políticos e as concomitantes preocupações com a segurança.

Outros serviços, como o comércio, os transportes, os serviços financeiros e o imobiliário, estão igualmente a contribuir para o crescimento. Para além disso, a difusão de novas tecnologias, como os telefones móveis e os computadores, continua a impulsionar a quantidade e qualidade dos serviços. A maioria do continente ainda tem um acesso reduzido a tecnologias de informação e comunicação (TIC), mas muitos países estão agora a promover a difusão das TIC, o que ajudará a reforçar o potencial de crescimento africano (PEA, 2009).

Em comparação com os países asiáticos em desenvolvimento, o sector da indústria transformadora em África continua a estar atrasado. Em muitos países africanos, o peso da indústria transformadora apenas contribui para o PIB com cerca de 10% ou menos. Os sectores das manufacturas são maiores (com percentagens do PIB entre 15 e 20%) em países tais como os Camarões, a Costa do Marfim, o Egipto, o Lesoto, Madagáscar, as Mauricias, Marrocos, a Namíbia, a África do Sul, a Tunísia e o Zimbabué. Diversos factores explicam a relativamente fraca actividade industrial em África. Estrangulamentos infraestruturais, fornecimento de energia pouco fiável e a burocracia continuam a ser obstáculos importantes em muitos países. As empresas que operam neste sector enfrentam igualmente a feroz concorrência das importações, sobretudo de países emergentes como a China. Para além disso, nos países ricos em recursos, a competitividade dos sectores não mineiros é enfraquecida se a exportação de mercadorias leva a uma subida das taxas de câmbio reais em relação às dos seus concorrentes (um efeito conhecido como doença Holandesa).

Os países ricos em recursos estão a tentar evitar uma apreciação excessiva das moedas através da intervenção nos mercados cambiais externos e pela acumulação de reservas, uma política que também é alvo de críticas. A acumulação de reservas – para lá dos níveis necessários para cobrir as importações, para proteger o país contra ataques especulativos e a queda dos preços dos recursos – não pode ser um fim em si mesma. Mas este «excesso de reservas» pode ser o resultado de intervenções na taxa de câmbio, para evitar a apreciação excessiva, que pode causar a doença holandesa e prejudicar as exportações da indústria transformadora. Uma rápida utilização dessas reservas para o financiamento de gastos sociais e consumo pode levar a uma subida da inflação e a uma apreciação real da moeda – o que a intervenção inicial do banco central tinha precisamente como objectivo evitar. A posse de reservas de moeda estrangeira em grande quantidade também envolve custos, pois a sua taxa real de retorno pode ser baixa. O excesso de reservas poderia, de outra forma, servir para financiar importações de bens de equipamento e outros gastos, que ajudam a aumentar o potencial de crescimento. Este tipo de utilização das reservas de moeda estrangeira conteria a inflação e os efeitos da doença Holandesa, contribuindo para o desenvolvimento económico. Presentemente há quinze Fundos Soberanos de Saúde (SWFs) em África, mas estes são geralmente pequenos e o seu principal objectivo é estabilizar a economia. Eles poderão desempenhar potencialmente um maior papel no desenvolvimento de África, mas isso requer ainda que a sua transparência fiscal e, além disso, a estrutura governamental associada sejam melhoradas. (Triki T. e Faye, 2011).    

Diversos países ricos em recursos estão a tentar diversificar as suas economias, estimulando os sectores não mineiros. A Zâmbia, por exemplo, está a criar zonas económicas, e o Botsuana está a implementar a Acção de Diversificação Económica (EDD), que favorece a celebração de contratos públicos com indústrias e fornecedores de serviços locais.

A produção industrial sul-africana foi atingida pela recessão global em 2009; recuperou em 2010, mas ainda não alcançou o nível pré-crise. A produção industrial da África do Sul continua a ser prejudicada por constrangimentos estruturais tais como estrangulamentos infra-estruturais, um relativamente fraco crescimento dos mercados de exportação para a Europa e uma forte taxa de câmbio do rand. O sector industrial egípcio, que também decaiu com a recessão global, recuperou em 2010, liderado pelas exportações. A indústria transformadora do Lesoto, dominada pelos têxteis e pelo vestuário, também diminuiu em 2009, e recuperou gradualmente em 2010. Desde que atingiu o seu pico, em 2004, o sector dos têxteis e vestuário perdeu um número significativo de postos de trabalho e continua a enfrentar uma feroz concorrência das empresas asiáticas. Na Namíbia, o principal motor da indústria transformadora são as conservas de peixe e de outros alimentos. Esta actividade resistiu à crise e assim continuou em 2010. Em 2011, os sectores industriais deverão expandir-se ainda mais, alicerçados pelo aumento das exportações. Obstáculos estruturais e a forte concorrência externa, porém, continuam a restringir o crescimento.

Caixa 1.2. Perspectivas para a economia internacional

A economia mundial conheceu uma impressionante recuperação, após a forte queda de 2009 (Fig. 1.6).  Políticas expansionistas nas principais regiões do mundo, ajudaram esta recuperação. Após um declínio de 0,5% em 2009, o produto mundial cresceu 5% em 2010. A recuperação da economia mundial deverá continuar em 2011 e 2012, se bem que a um ritmo mais moderado.

Enquanto os  preços mais elevados dos alimentos e dos combustíveis devam afectar o consumo global, o sismo e o tsunami no Japão irão, temporariamente, reduzir o produto global. No momento em que se escreve o impacto na economia global dos acontecimentos no Japão é ainda muito incerto. Partindo do pressuposto de que os efeitos na economia global continuarão a ser moderados, o crescimento do produto mundial deverá ser na ordem dos 4,5%, tanto em 2011 como em 2012. O comércio mundial, em termos de volume, deverá crescer à volta de 7%, em 2011 e em 2012, um valor abaixo dos 12,4% registados em 2010.

As economias europeias alcançaram um crescimento médio de 1,8% em 2010. Em resposta à crise da dívida soberana que estalou na Grécia (nos primeiros meses de 2010), na Irlanda (em Novembro) e em Portugal (em Abril de 2011), os pacotes internacionais de resgate para estes países foram associados (110 biliões, 85 biliões, 80 biliões, respectivamente). Simultaneamente, foi criado o Fundo Europeu de Estabilização Financeiro (FEEF), um sistema permanente para enfrentar crises da dívida, que entrará em vigor em 2013.

Em 2011, espera-se que o BCE aumente moderadamente as taxas de juro. Numa primeira fase, em 7 de Abril, aumentou a taxa de juro de referência de 1% para 1,25%. Os governos europeus estão a retirar medidas de estímulo, a cortar na despesa e - algumas vezes - a aumentar impostos para reduzir os valores históricos que atingiram os défices orçamentais. Esta saída da política expansionista, em toda a Europa, deverá afectar a procura de curto prazo. Espera-se que o crescimento dos 27 países da União Europeia, aumente para cerca de 2% em 2011 e 2012,  depois de 1,8% em 2010 e -4,1% em 2009. O crescimento continua a ser muito desigual por toda a Europa. Em alguns países europeus, como a Grécia, a Irlanda, Portugal e a Espanha as condições económicas continuarão frágeis.

A economia norte-americana também recuperou em 2010, com o crescimento de 2,8% a compensar o declínio do PIB de 2009 (‑2,6%). Apesar de o produto ter recuperado, o desemprego continuou a atingir valores históricos. Os preços no consumidor cresceram menos de 1%, mantendo presente os riscos deflacionistas. A Reserva Federal respondeu com a recompra de obrigações do tesouro e de títulos garantidos por hipotecas (uma política conhecida como quantitative easing ou QE2). Ao mesmo tempo, manteve-se uma política fiscal expansionista. Em 2011, os efeitos da reposição de stocks, que sustentaram a procura em 2010, estão a esmorecer. Adicionalmente, a capacidade instalada nos mercados imobiliários continua a deprimir o sector da construção. O alto nível de desemprego, o grau de endividamento das famílias e a subida dos preços do petróleo atingem o consumo, mas o forte desempenho dos mercados de títulos dá algum apoio, pela produção de riqueza. A recuperação do PIB desde a profunda recessão de 2009 continua a ser mais difícil do que aconteceu em crises anteriores, com o crescimento a ficar próximo dos 3% em 2011 e 2012.

 A economia japonesa recuperou igualmente da forte recessão, com o PIB real a crescer perto de 4% em 2010, o que não foi suficiente para compensar o declínio de mais de 6%, em 2009. O crescimento foi sobretudo suportado pelo consumo privado, impulsionado por medidas de estímulos fiscais e pelas exportações. Já as actividades de investimento continuam modestas. A 11 de Março de 2011, o Japão foi atingido por um forte terramoto e por um tsunami, que causaram milhares de vítimas, provocaram danos sérios em centrais nucleares e perturbaram todo o funcionamento da economia. Antes da catástrofe, previa-se que o crescimento japonês seria da ordem de 1% a 2%, em 2011 e 2012. Como a economia foi fortemente perturbada pelo terramoto, o PIB deverá provavelmente decrescer no primeiro semestre de 2011, recuperando mais tarde, graças às actividades de reconstrução, apesar do tempo de recuperação e os efeitos globais em 2011 permanecerem incertos.

A economia chinesa aguentou muito bem a crise, com a ajuda de políticas fiscais expansionistas. Em 2009, o crescimento ultrapassou os 9%, e em 2010 voltou a acelerar, para valores superiores a 10%. Ao mesmo tempo, as pressões inflacionistas aumentaram, fruto da alta dos preços dos alimentos, causada principalmente por problemas de abastecimento, tanto na China como noutros pontos do globo. Também o forte crescimento económico e a elevada liquidez do sistema bancário incentivaram as pressões inflacionistas, sobretudo no sector imobiliário. O Banco Popular da China (BPC) respondeu com o aumento das taxas de reservas bancárias e com a subida das taxas de juro. Estas medidas, em conjunto com a moderação da procura externa, devem reduzir o crescimento para cerca de 9,5%, tanto em 2011 como em 2012. Em Março de 2011, a China divulgou o seu décimo segundo plano quinquenal (2011-2015), que tem como objectivo um crescimento mais moderado, na casa dos 7%. Este plano também sublinha um objectivo de desenvolvimento mais amplo, que inclui questões ambientais, uma maior equidade na redistribuição dos rendimentos e a alteração do padrão de crescimento: do crescimento das exportações e do investimento para o consumo privado e da indústria transformadora para os serviços. Se for bem sucedida, esta estratégia terá importantes implicações, não só para a China como também para os seus parceiros comerciais, incluindo África.

A economia indiana manteve um desempenho impressionante, com um crescimento acima dos 10% em 2010 (depois de ter alcançado 6,8% em 2009). O crescimento apoiou-se sobretudo na procura interna, principalmente no consumo privado e no investimento. As exportações de serviços (maioritariamente de software) mantiveram-se fortes, enquanto outras exportações contribuíram pouco para o crescimento. Com a subida das pressões inflacionistas, o Banco Central subiu as taxas de juro. A taxa de câmbio alta também ajudou a mitigar a inflação. Prevê-se que o crescimento abrande de forma gradual, chegando a cerca de 8% em 2011 e 2012. Mas a Índia também enfrenta estrangulamentos que afectam o crescimento de médio prazo, tanto em termos de infraestruturas (vias de comunicação rodoviárias, fornecimento de energia eléctrica) como de escassez de mão-de-obra qualificada e rigidez do mercado laboral.

As economias latino-americanas recuperaram da recessão de 2009, com os países a beneficiarem do crescimento dos preços das matérias-primas. O aumento do consumo público no período eleitoral contribuiu igualmente para a recuperação brasileira. Quando as pressões inflacionistas subiram, alguns dos países responderam com o aumento das taxas de juro. Mas esta opção, num quadro de perspectivas económicas favoráveis, atraiu a importação de capitais, fez subir as taxas de câmbio e reduzir a competitividade internacional. Alguns países optaram pela intervenção nos mercados cambiais e pela restrição à importação de capital, aumentando as taxas, como fez o Brasil. O crescimento na América Latina deverá abrandar, em consequência da descida da procura nos países industriais. Espera-se que o crescimento no Brasil se situe na ordem dos 4,5% em 2011 e à volta dos 4% em 2012 depois de 7,5% em 2010 e -0,6% em 2009.

 

Figura 1.6: Crescimento Económico Mundial