Preços altos estão a dinamizar o crescimento dos exportadores de mercadorias
Alicerçados na expansão da procura global, os preços das mercadorias continuaram a aumentar em 2010 e nos primeiros meses de 2011 alguns preços alcançaram novos máximos históricos (ver Figuras 1.10 - 1.13). O preço do crude (barril de Brent) aumentou significativamente, dos cerca de 30 USD por barril, em Dezembro de 2008, e está, no momento em que se escreve, a flutuar à volta dos 110 USD, o que representa cerca de três quartos do seu máximo histórico: 145 USD, em Julho de 2008. A mais recente subida dos preços – entre 110 e 120USD – foi causada pelos acontecimentos na Líbia. As alterações nos preços do crude dependem da evolução dos acontecimentos políticos nos países produtores de petróleo, sobretudo na Líbia, mas também da resposta do lado da oferta à recente subida dos preços. Alguns países da OPEP, como a Arábia Saudita, aumentaram a produção em resposta à subida dos preços, mas nem todos seguiram esta posição. Este relatório baseia-se no pressuposto de que, no período de projecção 2011/2012, o preço médio do petrólio será de 90 USD por barril. A incerteza sobre o preço do petróleo continuará a ser o maior factor de risco para o crescimento da economia nos próximos tempos.. Os exportadores de petróleo africanos, nomeadamente Nigéria, Argélia, Angola e Sudão, estão a beneficiar deste “boom” de crescimento dos preços. A Líbia, apesar de ter as maiores reservas de petróleo de África não se encontra na mesma situação, pois a agitação política causou um acentuado declínio na actividade petrolífera e na produção agregada. Se os países exportadores de petróleo beneficiam com os ganhos inesperados das exportações, balança de transacções e taxas alfandegárias, os países importadores estão a sofrer perdas nas exportações e a piorar as suas balanças de pagamentos. Isto é um facto ainda mais flagrante para os países pobres altamente endividados (PPAE/HIPCs). O impacto de preços mais elevados do petróleo nas economias depende também da maneira como os países respondem ao choque petrolífero. Se os governos conseguem conter o impacto do choque controlando os preços do petróleo e/ou providenciando subsídios às exportações, estas cairão menos a curto prazo, mas o défice esperado aumentará, o que pode causar perdas nas exportações, a longo prazo.
O preço do ouro manteve a sua trajectória ascendente em 2010, o que se continua a verificar em 2011, sustentada na procura global, mas procura refúgio relativamente aos riscos dos mercados financeiros e das taxas de câmbio. A escalada da violência na Líbia aumentou ainda mais os preços do ouro. Esta situação beneficia países como a África do Sul, o Gana, o Zimbabué, a Tanzânia, a Guiné Conacri e o Mali, os maiores produtores de ouro. África representa cerca de 30% da produção global de ouro.
Preços de outros metais recuperaram no início de 2009, com o aumento da procura global. O preço do cobre alcançou um novo pico histórico, gerando ganhos excepcionais para os países produtores. A Zâmbia é o maior produtor de cobre em África, seguindo-se a República Democrática do Congo e a África do Sul. O preço do alumínio recuperou a um ritmo mais moderado. A África do Sul e Moçambique são os maiores produtores do continente, seguindo-se o Egipto, o Gana, a Nigéria e os Camarões.
Os preços das exportações de produtos agrícolas aumentaram no decorrer de 2010 e no início de 2011. O algodão registou a maior subida de preços, fruto do aumento da procura global (sobretudo da China) e de quebras no fornecimento causadas por fracas colheitas no Paquistão e pelas restrições à exportação na Índia. No continente africano, o Burkina-Faso, o Chade, o Mali e o Benim são os maiores produtores de algodão. O preço do cacau ficou marcado por fortes oscilações, em consequência dos acontecimentos na Costa do Marfim, o maior produtor mundial. O preço caiu com o anúncio de uma boa colheita na Costa do Marfim, mas disparou com a proibição de exportações de cacau imposta pela UE. Esta proibição teve como objectivo cortar as fontes de financiamento do candidato derrotado, Mr. Gbabo, e apoiar Mr. Ouattara, o internacionalmente reconhecido vencedor das eleições presidenciais, mas acabou por afectar os agricultores. Depois de Mr. Gbagbo ter sido detido, a proibição das exportações foi levantada.
Os preços do café estão também a recuperar rapidamente devido a colheitas pobres nos principais países produtores tais como a Colômbia e o Brasil. A subida de preços tem beneficiado os produtores africanos, como a Etiópia e Quénia e ajudado a absorver o impacto de uma produção mais reduzida, consequência de más condições atmosféricas nalgumas regiões produtoras de café.
Os preços dos produtos alimentares de primeira necessidade subiram significativamente no decurso de 2010, com destaque para o trigo e o milho, com um ritmo mais acelerado de crescimento do que o do arroz. Os agricultores africanos beneficiaram desta alta dos preços agrícolas, mas os consumidores, especialmente nas áreas urbanas, estão a ser muito afectados. Em muitos países, as difíceis condições de vida da população contribuem para uma grande agitação política – sendo certo que outros problemas, como as altas taxas de desemprego jovem e a falta de liberdade política, estão paralelamente na base da contestação política.
Diversas causas estão na origem desta subida dos preços dos alimentos, como o crescimento da procura global e as dificuldades de fornecimento. A especulação dos mercados financeiros tem sido criticada e apontada como amplificadora desta subida, se bem que a dimensão dos seus efeitos é controversa (ver Caixa 1.3).
Figura 1.10: Preço do petróleo e do ouro (base: Janeiro de 2000)
Figura 1.11: Preço do cobre e do alumínio (base: Janeiro de 2000)
Como o continente africano é um importador líquido de alimentos, a forte subida dos preços faz crescer a factura das importações, o que pressiona a balança de pagamentos e aumenta a inflação. Naqueles países onde os governos aumentaram os subsídios aos alimentos para proteger as suas populações, o fardo transfere-se para o orçamento de Estado, gerando subidas do défice e/ou cortes noutras despesas. Os países do grupo de países de baixos rendimentos, deficitários em alimentos (LIFCD), são particularmente vulneráveis à subida dos preços alimentares5. Segundo a classificação de 2010 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), dos 77 países deste grupo, em todo o mundo, 43 são africanos – cerca de 80% dos países do continente. Para prevenir (ou dar respostas) a situações de agitação social, os países estão a tomar medidas para enfrentar os efeitos dos altos preços dos produtos alimentares. No Egipto, por exemplo, que é um grande importador de alimentos – importa 40% do total dos bens alimentares de primeira necessidade e 60% do trigo que consome – o número de utilizadores de cartões de racionamento aumentou.
Figura 1.12: Preços de exportação de produtos agrícolas (base: Janeiro de 2000)
Figura 1.13: Preços de importações de bens alimentares de primeira necessidade (base: Janeiro de 2000)
Caixa 1.3: Causas da inflação dos preços dos produtos alimentares
Depois de terem atingido o pico, na segunda metade de 2008, os preços internacionais dos produtos alimentares baixaram, para depois retomarem a tendência de alta em 2009 e 2010. Os preços dos cereais, óleos alimentares e açúcar foram os que mais subiram, tendo a carne aumentos mais moderados. Na base desta recente subida parece estar a oferta global e os desequilíbrios na procura nos mercados de bens agrícolas.
Do lado da oferta, condições climatéricas desfavoráveis em vários países produtores de relevo afectaram os preços do açúcar e do trigo. O Brasil, o mais importante produtor de açúcar, foi afectado pelo tempo seco, e, na Índia, a produção de açúcar no Uttar Pradesh (a região onde mais se planta cana) foi reduzida pelas fortes chuvas, infestações e pragas. Relativamente ao trigo, a campanha australiana foi afectada pelas chuvas, e muitos outros países produtores conheceram condições climatéricas pouco favoráveis. Na sequência da fraca colheita de trigo, afectada pela seca, a Federação Russa proibiu as exportações de cereal, diminuindo a oferta nos mercados internacionais. Adicionalmente, as más condições atmosféricas afectaram a produção agrícola em muitos países africanos, como o Benim, Madagáscar, Marrocos, Moçambique, a Tunísia e o Zimbabué. Outros países conheceram a situação inversa, com boas condições atmosféricas a gerarem boas colheitas, ajudando a mitigar os efeitos da alta global dos preços dos alimentos. De qualquer modo, a segurança alimentar continua a ser uma questão crítica para os grupos vulneráveis.
Do lado da procura, o crescimento da população mundial é muitas vezes apontado como o principal responsável pelos preços dos alimentos. Embora seja verdade, a médio e longo prazo, não explica o recente pico dos preços. Assim, juntamente com os problemas existentes do lado da oferta, outros factores do lado da procura parecem ser mais importantes, nomeadamente o facto de os países estarem a aumentar os seus stocks, numa medida de protecção das populações perante subidas adicionais. Outros factores influenciam os preços, tanto do lado da procura como da oferta: os custos da energia e a expansão da produção de biocombustíveis. O acentuado aumento dos preços do petróleo faz subir os custos de produção (incluindo os preços dos fertilizantes) e o transporte de produtos regionais, mas também torna mais atractiva a transformação de produtos agrícolas em biocombustíveis. Os regulamentos (na União Europeia, por exemplo) dos subsídios ao etanol (como nos Estados Unidos) estimulam o uso de biocombustíveis. A procura adicional de produtos agrícolas que podem ser utilizados para a produção de biocombustíveis aumenta os seus preços. À medida que os consumidores alteram a sua procura para produtos mais baratos, esses preços também sobem. Simultaneamente, os agricultores consideram mais lucrativo usar as suas terras para cultivar produtos susceptíveis de transformação em biocombustíveis, o que reduz a oferta de alimentos e, logo, faz aumentar os seus preços.
Para além das condicionantes directamente ligadas aos mercados agrícolas, outros factores, como a relativamente fraca taxa de câmbio do dólar norte-americano, são apontados como originando a subida dos preços dos alimentos. Como os preços das mercadorias tem paridade em dólares norte-americanos, um dólar fraco encoraja o aprovisionamento dos stocks, aumentando, assim, a procura, enquanto os produtores pedem preços mais altos (em dólares norte-americanos), o que faz subir os preços. Não é fácil, no entanto, isolar os efeitos das taxas de câmbio de outros factores que mudam em simultâneo, nomeadamente a recuperação da economia global. A especulação dos mercados financeiros também é apontada como causa da volatilidade e da recente subida dos preços das mercadorias. É certo que, nos anos mais recentes, o dinheiro está a entrar mais nos mercados de mercadorias, também em resultado do excesso de liquidez dos mercados financeiros, causado por politicas monetárias expansionistas. Existem, no entanto, diferentes perspectivas sobre os efeitos que tal pode ter nos preços, pois a relação causal entre os preços do mercado à vista e os preços do mercado de futuros não é muito clara.
Useful links
- African Development Bank
- OECD Development Centre
- OECD
- Proparco's magazine - Private Sector and Development
- UNECA
- UNDP Africa bureau
- United Nations
- World Bank



