Perspectivas Macroeconómicas
A economia de África deverá assistir a um efeito de ricochete em 2012, após as revoltas populares e a turbulência política terem feito decrescer o crescimento económico global para 3,4% em 2011.
O continente está a recuperar da crise económica mundial de 2009 e esta tendência deverá ser mantida, apesar da desaceleração global limitar o crescimento africano. Com a recuperação gradual das economias do Norte de África, prevê-se que o crescimento médio de África recue para 4,5% em 2012 e 4,8% em 2013. O ambiente internacional permanecerá difícil no curto prazo.
Apesar de manter a atenção sobre as nuvens de tempestade económica que pairam sobre a Europa, África deve manter o enfoque nas reformas que promovem o crescimento e acalmar as tensões sociais que espoletaram as revoluções árabes e originaram uma queda de 3,6% no crescimento do Produto Interno Bruto do Norte de África, quase até à estagnação em 2011.
No Egipto verificou-se uma queda de 3,3 pontos percentuais com um crescimento abaixo de 2% em 2011, e na Tunísia a queda foi de 4,2 pontos percentuais para um crescimento negativo de aproximadamente 1%. Na Líbia, a guerra civil paralisou a produção de petróleo e o PIB registou uma redução de mais de 40%. Na Costa do Marfim, o conflito pós-eleitoral originou um declínio de quase 6% no PIB. A secessão do Sudão do Sul foi outro acontecimento político de relevo. Consequentemente, o Sudão perdeu a maioria das receitas petrolíferas e os dois países ainda estão em desacordo sobre a sua retirada, nomeadamente sobre as tarifas e taxas do transporte do petróleo para os mercados.
Algumas partes da África Oriental foram atingidas por uma crise alimentar severa e o consumidor africano teve, no geral, de lidar com inflação importada devido ao aumento dos preços dos bens alimentares e dos combustíveis.
O ambiente internacional mais frágil também afectou as economias africanas. Isto pode ser observado na deterioração dos resultados da avaliação económica trimestral feita por participantes africanos numa pesquisa internacional, durante o ano de 2011. Esta avaliação melhorou ligeiramente no primeiro trimestre de 2012 (Figura 1.1).
Em função de todos estes choques, o decréscimo do crescimento médio de África para 3,4% em 2011 (de 5% em 2010) foi relativamente moderado. A perda de crescimento proveio da perturbação no Norte de África e a África Subsaariana continuou a crescer acima dos 5%.
O continente africano continua a beneficiar do crescimento relativamente elevado das economias emergentes, tais como a China e a Índia, que se tornaram cada vez mais importantes para o comércio e investimento em África[1]. Apesar de este facto ajudar África a tornar-se mais resistente, estes países não conseguem compensar totalmente os efeitos adversos das economias avançadas, pelo que a sua expansão também registou um abrandamento recente (Figuras 1.2 e 1.3 e Caixa 1.1). (A previsão macroeconómica detalhada para África e para os seus agrupamentos regionais é apresentada em anexo, nas tabelas 1.a e 1.b, no final do presente capítulo).
Os preços das matérias-primas desceram do pico em que se encontravam e é provável alguns preços diminuam ainda mais, devido a uma menor procura e a uma oferta acrescida. Porém, espera-se que a maioria dos preços das matérias-primas se mantenha em níveis favoráveis para os exportadores africanos destes produtos. O crescimento será impulsionado, em alguns países, pela entrada em funcionamento de novos campos petrolíferos.
A ameaça vem de um agravamento da crise da dívida na Europa, causando um crescimento global menor. Isto resultaria num enfraquecimento mais acentuado dos mercados africanos de exportação, na depressão dos preços das matérias-primas e prejudicaria a recuperação de África.
Com um crescimento populacional anual acima dos 2% em África, prevê-se que PIB per capita aumente, em média, 2% a 2,5% em 2012/13. De 2009 a 2013, o crescimento per capita anual equivalerá a cerca de 2%, abaixo dos 3,5% no quinquénio anterior. Em muitos países, o crescimento não será suficiente para reduzir a pobreza de forma significativa. Aumentar o crescimento e torná-lo mais inclusivo continua a ser um dos desafios principais para muitos países africanos.
[1] Ver o capítulo especial no PEA 2010.
Figura 1.02. Análise Africana da Situação Económica Actual e Expectativas para os próximos seis meses

Slowing global growth
Caixa 1.1: Crescimento global em abrandamento[2]
A recuperação rápida da economia mundial, em 2010, da recessão profunda de 2009 foi seguida de um crescimento mais moderado em 2011. O crescimento abrandou significativamente nos países mais avançados em 2011 e prevê-se que o crescimento global se mantenha ténue em 2012. No primeiro semestre de 2011, a actividade económica mundial foi afectada pelo terramoto e tsunami no Japão e pelo aumento repentino dos preços do petróleo após a guerra civil na Líbia. Embora estes efeitos temporários tenham acalmado no segundo semestre, a confiança dos consumidores e dos empresários foi afectada por problemas não resolvidos a nível orçamental e nos mercados financeiros, na Europa e nos Estados Unidos. Enquanto alguns países, nomeadamente na área periférica do Euro, sofriam com altas taxas de juro devido a prémios de risco elevados, as taxas de longo prazo da dívida soberana continuavam a atingir mínimos históricos. Isto reflecte igualmente a aversão ao risco por parte dos que têm poupanças e dos investidores, bem como a expectativa de continuação do baixo crescimento nas economias avançadas. Até ao presente, tem-se evitado uma queda mais brusca da economia global através de um crescimento relativamente forte, embora até isso esteja a tornar-se mais ténue nas economias emergentes, especialmente na China e Índia.
O abrandamento da economia global atingiu alguns países africanos, particularmente aqueles cujos principais mercados de exportação se situam na Europa e nos Estados Unidos. A nossa previsão para África presume que o crescimento do produto abrandará para 3%-3,5% em 2012 (de 3,8% em 2011 e 5,2% em 2010) e recuperará gradualmente para perto de 4% em 2013. Prevê-se que o crescimento no volume de comércio mundial desça de aproximadamente 7%, em 2011, para menos de 4% em 2012, acelerando novamente para cerca de 5,5% em 2013. Esta previsão implica que o crescimento global do produto e do comércio não retorne a níveis pré-crise. De 2004 a 2007, o crescimento
anual do produto mundial e do comércio mundial esteve à roda de 5% e 9%, respectivamente. Mas no decurso de 2012 e início de 2013 espera-se que a actividade económica se fortaleça e proporcione um crescimento positivo para os exportadores africanos. Devido à menor procura global, os preços das matérias-primas desceram do seu apogeu do início de 2011. O declínio deverá terminar gradualmente, com a maioria dos preços destes bens a permanecerem acima dos níveis médios registados nos cinco anos antes da crise global de 2009.
O crescimento europeu registou um enfraquecimento em 2011 e prevê-se que abrande ainda mais em 2012, antes da retoma em 2013. A Europa continua a sofrer de restrições orçamentais, de menor procura externa e, em especial, de perda de confiança devido à agitação nos mercados financeiros. As tentativas de conter o contágio da crise da dívida grega a outros países membros do Euro - particularmente a Itália, Portugal e Espanha – não foram totalmente bem sucedidas e os prémios de risco nas obrigações do Estado aumentaram para níveis insustentáveis em alguns países. Os governos impuseram programas adicionais de austeridade e adicionaram reservas financeiras para restaurarem a estabilidade no mercado financeiro, através de compra de títulos de dívida pública (as chamadas políticas de flexibilização quantitativa). Não existe um caminho fácil de saída da crise. Enquanto os mercados financeiros exigirem maiores progressos na diminuição da dívida soberana, ao mesmo tempo a procura diminui, o que torna essa tarefa ainda mais difícil. Para além disso, os bancos europeus precisam de aumentos de capital, mas em alguns países estão confrontados com fuga de capitais. O Banco Central Europeu tem desempenhado um papel muito activo, aumentando a liquidez, o que reduziu os prémios de risco em alguns países, pelo menos temporariamente. No entanto, a economia grega continua bloqueada numa crise da dívida, declínio económico e programas de austeridade. Em Fevereiro, o parlamento grego aprovou um novo programa de austeridade, para conseguir apoio financeiro suplementar do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia (UE). A reestruturação da dívida soberana grega, em Março, veio reduzir significativamente o nível de endividamento e abrir portas a outro pacote de resgate UE-FMI de 130 mil milhões de Euros. Por enquanto, evitou-se o incumprimento. Apesar de existir ainda o risco de a Grécia, e talvez Portugal, enfrentarem um incumprimento controlado dentro da união monetária, ou de a zona Euro se desmoronar em conjunto, estes não são os resultados mais prováveis. Com efeito, verificaram-se recentemente sinais positivos na economia europeia e a confiança de negócios tem vindo a aumentar na Alemanha. Prevê-se que, em 2012, a zona Euro tenha um crescimento ligeiramente negativo, antes de se fortalecer novamente em 2013. A crise financeira pode, contudo, ter efeitos adversos de longa duração no crescimento europeu, enquanto os países lutam para restaurar a sustentabilidade orçamental. Isto pode afectar igualmente o crescimento africano, já que a Europa é um importante parceiro comercial e doador de ajuda ao desenvolvimento.
A economia dos EUA também perdeu vitalidade no decurso de 2011, enquanto se esgotavam os efeitos positivos do “stock cycle”. O consumo privado foi restringido pelo grande endividamento dos particulares, pelo desemprego elevado e pelos altos preços da energia. Apesar de o governo ter tomado medidas orçamentais expansionistas, o investimento e consumo público reais registaram um declínio, à medida que os estados e autoridades locais cortavam na despesa. Apesar do mercado imobiliário continuar em depressão, a procura agregada foi impulsionada por um maior investimento de negócios e pela melhoria na balança externa. O crescimento acelerou no final do ano, dinamizado pelo aumento de stocks. Com a melhoria do desempenho no mercado laboral, houve uma subida da confiança e da construção imobiliária, pelo que diminuiu o risco de uma nova recessão. Estima-se que o crescimento seja à roda dos 2% em 2012 e que acelere gradualmente em 2013. Assume-se que a política fiscal siga uma linha moderadamente restritiva, com o objectivo de reduzir o elevado défice orçamental e sem colocar a recuperação em risco. A Reserva Federal (FED) continua a impulsionar a economia ao manter a sua política de taxas de juros em 0%-0,25% e aumentar a base monetária através da política de flexibilização quantitativa. A FED afirma que as condições económicas, principalmente as baixas taxas de utilização de recursos e a baixa inflação irão requerer, provavelmente, uma taxa excepcionalmente baixa dos fundos federais, pelo menos até 2014.
No Japão, o grande terramoto e tsunami em Março de 2011 despedaçou a economia e causou uma perda de aproximadamente 3,5% do PIB, segundo as estimativas oficiais. Houve uma retoma do crescimento nos meses subsequentes, apoiada pela despesa de reconstrução, mas no final do ano verificou-se um novo enfraquecimento, pelo que o PIB de 2011 recuou mais de 2%. O governo adiou a consolidação orçamental planeada e está, em vez disso, a aumentar o investimento em infra-estruturas. Este é complementado pelo investimento privado por parte das empresas e das famílias, para reparar os danos. O banco central intensificou as suas medidas expansionistas, ao aumentar a compra de obrigações do Estado e outros activos financeiros. Interveio, também, nos mercados cambais, para diminuir a alta taxa de câmbio do Yen e estimular as exportações. Espera-se que o PIB cresça moderadamente em 2012, impulsionado pelo investimento público e privado e pela recuperação gradual do consumo privado.
A China atingiu outra vez, em 2011, um crescimento alto de 9,2% (abaixo dos 10,4% de 2010), apesar dos ventos desfavoráveis provenientes do fraco crescimento nas economias avançadas e do aperto da política monetária para combater as pressões inflacionistas. O investimento continuou forte e o consumo privado acelerou, beneficiando de um crescimento maior dos salários e de algumas medidas fiscais. O crescimento das exportações foi moderado, apesar das empresas chinesas continuarem a aumentar a sua quota nos mercados de exportação. O crescimento do volume de importações também diminuiu, mas o termos de troca deterioraram-se e o excedente na balança corrente decresceu de forma significativa, uma vez que os preços de importação aumentaram mais rapidamente do que os preços de exportação. A inflação atingiu um máximo acima dos 6% em meados de 2011 e diminuiu posteriormente para cerca de 4%. No final de 2011, houve um aumento do risco de um grande abrandamento económico devido à debilidade global, e a produção industrial chinesa decresceu pela primeira vez em três anos. Este facto suscitou receios de um desfecho difícil para a economia, pelo que o banco central responder cortando o rácio de reserva bancária em 50 pontos base. Estima-se que a actividade global moderada irá limitar o crescimento da China para cerca de 8,5% em 2012, prevendo-se uma ligeira aceleração em 2013. De acordo com o plano 2011-2015, a China pretende alterar o seu padrão de crescimento, das exportações e investimento para o consumo, e da indústria transformadora para os serviços. O crescimento chinês tornar-se-ia assim, no médio e longo prazo, menos intensivamente centrado nas matérias-primas, o que atenuaria a procura global por estes bens. Isto pode ter efeitos adversos nos exportadores africanos de matérias-primas. Contudo, com políticas adequadas, a África poder-se-ia também tornar mais interessante para as empresas industriais da China e de outros países, ajudando a diversificar as economias africanas.
O crescimento da Índia abrandou em 2011, de quase 8% no primeiro trimestre para cerca de 6% no último trimestre. Apesar da procura externa ter decrescido, a procura interna manteve-se forte, encorajada pelo consumo público e privado e pelo investimento público em infra-estruturas. A inflação caiu abaixo dos 7% no final de 2011, devido a alguma moderação nos preços dos alimentos e a políticas monetárias restritivas. Tem sido efectuado algum progresso em matéria de consolidação orçamental. O défice do sector público decresceu de 9,5% em 2009 para menos de 7% em 2011 e o défice do governo central para abaixo dos 5%. Espera-se que as chuvas de monção impulsionem a agricultura no curto prazo, mas o crescimento das exportações vai enfraquecer devido à menor procura global. As previsões apontam para um ligeiro abrandamento do crescimento em 2012 e uma nova aceleração em 2013.
Em 2011, as economias da América Latina beneficiaram dos preços elevados das matérias-primas e de uma procura interna pujante. Simultaneamente, a procura das economias avançadas abrandou e as altas taxas de juro (devido a importações de capital) bem como as pressões salariais, vieram prejudicar a competitividade. As medidas para reduzir as taxas de câmbio – através da intervenção nos mercados cambiais e da restrição temporária das importações de capital para atenuar as pressões de apreciação da moeda – foram apenas parcialmente bem sucedidas. A taxa média de crescimento na América Latina deverá abrandar para 3,6% em 2012 (descendo de 4,6% em 2011) e aumentar novamente para cerca de 4% em 2013. A economia do Brasil registou uma forte desaceleração no segundo semestre de 2011, levando o governo a anunciar medidas de estímulo. O banco central cortou as taxas de juro para evitar um maior enfraquecimento da economia. Prevê-se que o crescimento se mantenha moderado em cerca de 3% em 2012 e que aumente novamente para 4% em 2013. Nas últimas duas décadas, o crescimento brasileiro tornou-se mais inclusivo e a taxa de pobreza caiu para metade, graças a um grande crescimento do emprego e a políticas sociais eficazes.
[2] A informação aqui apresentada é baseada, em grande parte, nas Perspectivas Económicas da OCDE No. 90, de Novembro de 2011, e na actualização das Perspectivas Económicas Mundiais do FMI, de 24 de Janeiro de 2012, tendo sido actualizada o mais possível.





