O IDE é uma fonte especialmente importante de investimento em África. Nas últimas décadas, a percentagem do IDE na formação líquida de capital físico em África alcançou os 20% – o dobro da média global e 8% acima dos números de outros países em desenvolvimento (UNCTAD, 2010 b). A importância do IDE está em crescimento em todo o continente, mas mantém-se um padrão desigual de distribuição. Uma grande parte do IDE é dirigida para as indústrias extractivas, num número limitado de países. Atrair investimento para sectores mais diversificados e com maior valor acrescentado continua a ser um desafio premente em África. Muitos governos estão a enfrentar este desafio e a demonstrar empenhamento na melhoria dos quadros institucionais.

A Figura 2.1 mostra que o IDE nos países africanos atingiu o seu pico em 2008, com 72 mil milhões de USD (UNCTAD 2010 a), um valor cinco vezes maior do que o registado no ano 2000. O crescimento do IDE até 2008 foi suportado pela alta dos preços das matérias-primas, particularmente o petróleo, que desencadeou uma grande expansão nos investimentos dirigidos às mercadorias. A crise financeira global teve efeitos duplamente negativos. Por um lado, os investidores foram afectados e reduziram os seus investimentos, por outro, a crise levou a uma diminuição da procura das mercadorias africanas. Esta quebra na procura reduziu o investimento de capital naqueles sectores e países onde historicamente se concentra a recepção de fluxos de investimento externo. Em consequência, os fluxos de IDE para os países africanos decresceram 20%, registando, em 2009, 59 mil milhões de USD. Para 2010, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) prevê ainda um declínio para os 50 mil milhões de USD, enquanto os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam para 52 mil milhões de USD.

Figura 2.1: Fluxos de IDE e APD em África 2000-11 (milhares de milhões de USD, preços correntes)

Quando medidos em percentagem do IDE global, os fluxos para países africanos têm aumentado de forma consistente na última década, passando de 0,7% em 2000 para 5,3% em 2009. No entanto, a percentagem de África no IDE global caiu ligeiramente em 2010, alcançando os 4,5% – um decréscimo que se fica a dever, em grande medida, a uma mais acelerada recuperação da crise financeira em termos dos fluxos de IDE noutras regiões do mundo.

Em termos de sectores, os serviços, liderados pela indústria de telecomunicações, foram em 2009, o maior receptor de IDE, e atraíram a maior fatia de fusões e aquisições (F&A) transfronteiriças em África (UNCTAD, 2010 b). O sector primário, por seu lado, foi pressionado pelos baixos preços das mercadorias e pela falta de crédito. O IDE em África, porém, continua a estar concentrado em poucos países e sectores, o que aponta para a necessidade de uma maior diversificação. Como a Figura 2.2. mostra, entre 2000 e 2010, cerca de 75% do IDE em África teve como destino os países exportadores de petróleo. No que respeita a IDE com origem em países membros da OCDE, esta percentagem é ainda maior: 85%. 

Figura 2.2: Fluxos de IDE para países exportadores de petróleo vs. países sem petróleo 2000-09 (milhares de milhões de USD, preços correntes)

De 2008 a 2009, as F&A transfronteiriças líquidas caíram muito mais acentuadamente do que o IDE global: 75%, do maior valor registado – 21 mil milhões de USD, em 2008 – para os 5 mil milhões em 2009. Estas F&A transfronteiriças acabaram por conhecer uma recuperação de 50% em 2010, para os 8 mil milhões de USD – quando a recuperação global foi de apenas 37% (UNCTAD, 2010 b). A maior operação de F&A em África foi a aquisição pela empresa indiana de telecomunicações dos activos africanos na koweitiana Zain, no valor de 10,7 mil milhões de USD. Este valor, no entanto, não está incluído nos dados precedentes por não envolver fluxos financeiros com destino a África mas apenas uma troca de propriedade de activos africanos por empresas estrangeiras. Já a japonesa Nippon Telegraph and Telephone’s adquiriu a sul-africana Dimension Data Holdings por 3 mil milhões de USD, num fluxo financeiro significativo para África. Os mais relevantes negócios em termos de mercado de títulos incluem a oferta pública inicial da africana Barrick Gold no mercado londrino, no valor de aproximadamente 900 milhões de USD, enquanto a maior emissão de dívida pública soberana, da África do Sul, chegou a cerca de 2 mil milhões de USD (Thomson Reuters, 2010).

Uma miríade de factores vai influenciar o IDE em África em 2011. Do lado positivo, a economia global continua a recuperar da crise financeira, especialmente nas economias emergentes, que desempenham um papel cada vez mais importante em África. Em conjunto com o aumento do preço das mercadorias, esta recuperação económica proporciona um cenário positivo para os países exportadores de recursos naturais, que podem esperar um crescimento dos fluxos de IDE. Á medida que os investidores, particularmente os dos países emergentes, vão ficando mais confortáveis com o clima de negócios africano, a recuperação global irá também levar, provavelmente, a um aumento dos investimentos noutros sectores.

Alguns factores negativos podem, por seu turno, influenciar o IDE em África. Desde o início de 2011, os desenvolvimentos políticos no Norte de África e no Médio Oriente, especificamente, deverão ter, no futuro próximo, um impacto negativo no IDE e nos fluxos de investimentos de carteira, através de dois canais. O Norte de África tem sido importante como destino de fluxos de IDE provenientes do exterior do continente e tem sido fonte de IDE intra-africano. Dada a actual incerteza política, os investidores externos irão, possivelmente, afastar-se da região e os investidores norte-africanos serão muito menos activos nos outros países do continente. Em menor grau, uma avaliação similar pode ser feita para o Médio Oriente, que tem sido uma fonte chave de investimento em África. As consequências da situação no Norte de África poderão ainda ser maiores para o IDE se os investidores interpretarem os recentes acontecimentos na região como sinal de uma crescente instabilidade política por todo o continente.