Questões sobre a Base Fiscal
As Multinacionais e a utilização abusiva de técnicas sobre Preços de Transferência
As empresas Multinacionais são responsáveis por mais de 60% do comércio mundial e a maior parte destas transacções de bens e serviços ocorre no seio de conglomerados individuais. O comércio internacional é, portanto, em grande medida uma actividade que se desenvolve entre diferentes partes de uma mesma empresa, que opera em diferentes jurisdições. Os conglomerados aprenderam a tirar partido das várias jurisdições, incluindo os paraísos fiscais, para maximizarem o nível dos seus lucros após os impostos. Uma das formas através da qual as Multinacionais podem beneficiar da sua presença internacional é a utilização abusiva dos preços de transferência ou transferindo artificialmente os lucros tributáveis de uma jurisdição para outra. Isso acontece quando empresas sob ou sobre facturam produtos, serviços, bens intangíveis ou transacções financeiras entre entidades situadas em diferentes jurisdições fiscais.
As autoridades fiscais africanas não têm informação suficiente sobre a deslocalização de lucros através da utilização abusiva dos preços de transferência. Mesmo se tivessem, muitas vezes não dispõem da capacidade técnica ou dos meios para lidarem com a complexidade deste tipo de prática. Apesar do desenvolvimento de um conjunto de orientações nacionais e internacionais, mesmo a Administração Fiscal mais sofisticada tem por vezes dificuldade em avaliar se os preços das trocas transnacionais das Multinacionais são manipulados, especialmente em transacções financeiras complexas e as que envolvem bens únicos intangíveis. As administrações fiscais Africanas têm já dificuldade em cobrar os normais impostos empresariais de mais de uma dúzia de grandes empresas. A sua capacidade de auditoria é frequentemente muito limitada e baseia-se, na sua maioria, em informação disponibilizada directamente pelas multinacionais. Isto sem referir que um processo de arbitragem devido a desentendimentos com uma empresa Multinacional pode implicar custos muito elevados. Os preços de transferência são um problema significativo para os Países em Desenvolvimento. Vários estudos têm procurado quantificar o montante dos impostos perdidos por estes países devido à utilização abusiva dos preços de transferência. Kar e Cartwright-Smith (2008) estimam que, em 2006, o montante global resultante da distorção dos preços comerciais ultrapassou os 500 biliões de USD, o que representa cerca de metade da estimativa de fluxos financeiros ilícitos de países em desenvolvimento para países desenvolvidos. Hollingshead (2010) calcula que o montante de receitas fiscais perdido pelos países em desenvolvimento devido à má utilização dos preços de transferência atingiu anualmente um valor médio entre 98 e 106 biliões de dólares, entre 2002 e 2006. De acordo com a Global Financial Integrity (2010), só no continente africano, perdeu-se uma média anual de 3.8 biliões de dólares, de 2002 a 2006.
A questão dos preços de transferência é um problema internacional que afecta tanto as nações mais desenvolvidas como as em desenvolvimento. Os principais beneficiários são os paraísos fiscais e as empresas multinacionais. As autoridades fiscais em todo o mundo suspeitam da generalização dos abusos. Baker (2005) estimou que cerca de 7% do comércio mundial é realizado de acordo com preços distorcidos.
Tributação de Recursos Naturais
Grandes quantidades de recursos naturais – petróleo, gás natural e minerais – são já uma fonte de receita essencial para muitas nações africanas. Mas o relatório de desenvolvimento de 2007 do BAD deu destaque à convicção generalizada de que os países africanos recebem menos dinheiro dos recursos naturais do que muitos outros países do mundo. Existem sinais de que os países africanos não estão a maximizar a receita fiscal obtida através dos seus recursos naturais (FMI, 2009). Contudo, é difícil ter uma imagem clara relativamente a esta situação. Os contratos são frequentemente sujeitos a fortes cláusulas de confidencialidade por parte das empresas, governos, investidores e bancos envolvidos. Há pouca transparência e disponibilização de informação.
A corrupção é, muitas vezes, culpada por este clima de segredo, uma vez que são dois elementos que se alimentam mutuamente. Mas há mais do que a corrupção envolvida neste contexto. Os governos defendem que não podem tornar públicos todos os detalhes das indústrias extractivas e que têm uma capacidade limitada de influência sobre essas empresas. Os países competem pelas competências técnicas e de gestão necessárias para a extracção de recursos. (Di John, ibid). No entanto, a falta de conhecimentos jurídicos e de negociação tem um papel central na diminuição das receitas fiscais provenientes dos recursos naturais.
Avanço furtivo das Preferências Fiscais
As preferências fiscais – também denominadas de incentivos fiscais – concedem um tratamento fiscal preferencial a grupos específicos de contribuintes, a despesas ou retorno dos investimentos, através de deduções fiscais especiais, créditos, exclusões ou isenções. Os governos podem apresentar vários argumentos para a utilização de incentivos fiscais, como por exemplo responderem a diferentes tipos de falhas de mercado, necessidade de atraírem empresas estrangeiras (por exemplo, Comores, Camarões) ou de estimularem as exportações (por exemplo, Namíbia). As preferências fiscais são também usadas para aumentar ou diminuir a progressividade do sistema fiscal ou para beneficiar, por razões políticas, alguns grupos em detrimento de outros. No Sudão, por exemplo, uma alta proporção de funcionários públicos está isenta do pagamento de impostos, prejudicando a base tributária do país.
As preferências fiscais são difíceis de aplicar e podem não produzir os resultados esperados. Pelo contrário, podem originar perdas significativas de receitas fiscais e outros efeitos imprevistos. Quando se aplicam benefícios fiscais a grupos específicos em detrimento de outros, por razões políticas, podem gerar-se ineficiências e desigualdades. Com efeito, as preferenciais fiscais, quando concedidas arbitrariamente, podem deteriorar a base tributária, o nível de receitas e a legitimidade fiscal:
- As preferências fiscais concedidas a potenciais contribuintes mais poderosos e ricos, colocam uma maior carga fiscal sobre a população com menor poder político e económico;
- As consequências das isenções atribuídas a produtos, a serviços e a recursos humanos financiados pela ajuda internacional são também debatidos entre doadores e receptores (Caixa 3);
- Por último, os governos Africanos perdem uma quantidade significativa da receita devido a isenções sobre o imposto sobre o rendimento colectivo (IRC), embora essa perda seja difícil de estimar devido à sua natureza muitas vezes arbitrária (Ken e Mansour, 2009). No entanto, o IRC e outras receitas fiscais são essenciais para financiar infra-estruturas, a educação e despesas que sustentam uma boa governação, as quais os investidores identificam como um factor fundamental nas suas decisões sobre a localização dos investimentos.
Os países devem, por isso, utilizar os incentivos fiscais com cautela. Isso inclui explicar as razões para a sua utilização e reportar sobre as receitas fiscais perdidas devido aos incentivos fiscais (relatórios de despesas fiscais), em nome da transparência e integridade do sistema fiscal, protegendo-se simultaneamente contra a erosão da base tributária necessária financiar o desenvolvimento económico.
Caixa 3: Tributação de bens financiados pela Ajuda ao Desenvolvimento
Os países doadores conseguem, frequentemente, isenções fiscais nos países em desenvolvimento sobre os inputs da ajuda ao desenvolvimento. Essas isenções normalmente incluem os impostos sobre bens, serviços e rendimentos dos trabalhadores afectos a projectos de cooperação; Imposto sobre o valor acrescentado de bens adquiridos localmente; e dos direitos aduaneiros e impostos sobre as importações. Os funcionários da administração fiscal dos países receptores consideram que este tipo de isenções enfraquece os seus sistemas fiscais, gera complicações e custos consideráveis, criando oportunidades para a corrupção. Alguns doadores multilaterais já tomaram medidas neste domínio.
O Banco Mundial normalmente inclui no total dos empréstimos concedidos os direitos fiscais relevantes (e mais tarde a dívida), permitindo que eles sejam assumidos dentro do valor do empréstimo. Isto é implementado de diferentes formas, muitas vezes estabelecendo uma “percentagem” governamental do projecto ou definindo um pagamento correspondente ao nível mínimo dos impostos.
Esta é, simultaneamente, uma questão de princípio e de prática no que se refere ao desenvolvimento dos sistemas fiscais. Em princípio, as isenções deveriam ser eliminadas por motivos de eficiência económica e coerência e para ajudar a fortalecer os sistemas fiscais. Na prática, argumenta-se que as isenções:
(i) causam distorções económicas (por exemplo, bens e serviços importados de países doadores podem receber um tratamento fiscal preferencial em relação aos bens e serviços produzidos internamente);
(ii) criam oportunidades para a corrupção, particularmente os esquemas de fraude e evasão fiscal, os quais têm de ser controlados pela administração fiscal, pressionando ainda mais os seus escassos recursos;
(iii) fomentam significativamente uma cultura de isenções fiscais que afecta a globalidade da governação; para além da tributação da actividade governamental gerar obviamente recursos públicos, a percepção geral é importante, pelo que o facto dos funcionários públicos não pagarem impostos desencoraja outros contribuintes do cumprimento das suas obrigações fiscais;
e (iv) impõem custos de transacção significativos devido ao grande número de acordos negociados individualmente com cada país doador.
As informações recolhidas a nível nacional indicam que as isenções fiscais para projectos de ajuda ao desenvolvimento representam um problema orçamental significativo para os países receptores. No Níger, as despesas fiscais sobre vouchers – um método que pode ser usado para implementar isenções – atingiram, em 2002, cerca de 18% do financiamento de projectos e 10% das receitas fiscais totais. Na Tanzânia, as isenções aduaneiras concedidas aos doadores corresponderam a cerca de 17% do valor bruto das importações, em 2005. Os países em desenvolvimento afirmam que a eliminação das isenções alargaria a sua base tributária, aumentaria a credibilidade tanto da administração fiscal como dos países doadores, simplificaria o sistema fiscal e encorajaria o cumprimento voluntário das obrigações fiscais por parte dos contribuintes locais e multinacionais.
Do ponto de vista dos doadores, clarificar o alcance actual das isenções é um o processo complexo e de benefícios incertos. De entre os doadores bilaterais, apenas o DfID do Reino Unido manifestou interesse em debater este assunto. É improvável que os doadores concordem que os países em desenvolvimento perdem receitas por aceitarem ajuda externa, salientando que o pagamento de impostos sobre os inputs da ajuda ao desenvolvimento reduziria os recursos disponíveis para outros projectos. Há também algum cepticismo sobre se a eliminação de isenções sobre estes inputs levaria a uma abolição generalizada de todas as isenções, incluindo sobre as próprias compras dos países em desenvolvimento.
Fonte: CAD-OCDE (2010).
Theme 2011
Experts from different fields analyse what measures should African governments take in order to engage effectively with emerging economic partners in Africa, such as China, India, Brasil or Turkey.
Inquérito às despesas dos fiscais
Jean-Philippe Stijns, co-author of the "Public Resource Mobilisation" study, highlights Morocco's practices while observing their taxation policies.
Useful links
- African Development Bank
- OECD Development Centre
- OECD
- Proparco's magazine - Private Sector and Development
- UNECA
- UNDP Africa bureau
- United Nations
- World Bank



